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Arranha-céus de madeira vão mudar nosso horizonte


London Skyline

Nova madeira: como ela vai mudar nosso horizonte

Construções de madeira estão alcançando as alturas, graças aos avanços com madeira super-resistente.

(by Greg Callaghan, from The Sydney Morning Herald)

Se há algo que faz as pessoas falarem, isso é a elaboração de planos para um novo arranha-céus e fincá-lo no meio de um horizonte icônico como o de Londres, com vista para a majestosa Catedral de St Paul. Os londrinos têm apelidos legais para a safra de arranha-céus excêntricos que surgiram ao longo da última década ou mais – o Gherkin, o ralador de queijo e o Walkie-Talkie – mas se um pequeno grupo de arquitetos e engenheiros britânicos têm seu próprio jeito, a linha do horizonte pode acolher uma forma geométrica corajosa com um novo nome: o palito. Uma elegante torre de 80 andares vai subir 300 metros acima do Barbican Centre, um prédio residencial e de artes que é uma laje sombria de concreto que foi inaugurada pela Rainha em 1982.

Mas há algo muito diferente sobre essa torre proposta, algo que aponta para o possível renascimento dos próprios arranha-céus: Palito, como o nome sugere, será praticamente todo feito de madeira. Graças aos avanços significativos em produtos de madeira super-resistente ao longo da última década, tornando-a tão resistente quanto o aço ou o concreto estrutural, o palco já está pronto para a construção – pela primeira vez na história humana – de arranha-céus de madeira.

London Skyline
Percepção artística dos céus de Londres com a proposta “Palito”. Foto: Cortesia do PLP / Arquitetura

“Madeira maciça” é o termo coletivo para descrever esse novo conjunto de materiais estruturais que incluem madeira reticulada laminada, ou “CLT” (múltiplas camadas de madeira coladas umas às outras em ângulos retos sob extrema pressão, para formar paredes gigantes, teto e painéis de piso) e “madeira laminada colada” (camadas de madeira agrupadas ao longo do mesmo veio para fabricar vigas e postes). E aqui está outro apelido para esses arranha-céus lenhosos: plyscrapers (em tradução livre: arranha-céus em camadas).

Assim como o aço, o vidro e o concreto revolucionaram a construção de edifícios muito altos no século 20, é provável que agora a madeira, que foi apresentada como sendo muito mais amiga do meio ambiente, dando mais rapidez à construção, com praticamente zero desperdício e muito mais saudável, fará a mesma coisa à medida que o novo século prossegue, levando a luminosos novos perfis de arranha-céus na Europa, nos EUA e em partes da Ásia. O arquiteto britânico Andrew Waugh, cuja empresa Waugh Thistleton está construindo o maior conjunto habitacional madeira do mundo em Hackney, Londres, vai ao ponto de chamar isso de “o começo da era da madeira”.

Barangaroo
O primeiro bloco de escritórios em madeira de Sydney, International House em Barangaroo, deve ser inaugurado no próximo ano.

Atualmente, o edifício em madeira mais alto do mundo é o Treet (”a Árvore”), um bloco de apartamentos de 14 pisos em Bergen, na Noruega, que no ano passado superou o pioneiro arranha-céus de madeira, na Austrália, o edifício de apartamentos Forté, de 10 andares, em Melbourne, construído em 2012. Mas o Treet logo será um anão em comparação com a Torre HoHo, de 24 andares, em Viena, que deve ficar pronta no próximo ano, com um edifício de 18 andares na Universidade de British Columbia, que será inaugurado no ano que vem, e com uma torre de 34 andares em Estocolmo, cuja conclusão está prevista para 2023. No início deste ano, o arquiteto francês Jean-Paul Viguier ganhou um concurso de design para o Hyperion, uma torre residencial com estrutura de madeira em Bordeaux, com jardins suspensos, a ser concluída em 2020. Em Sydney há um complexo marcante de escritórios de madeira marcante no Barangaroo, a International House, a ser inaugurada no ano que vem.

Mas se o que você procura conhecer é o caso de um arranha-céus muito alto, icônico, Michael Ramage, diretor do Centro para Inovação em Materiais da Universidade de Cambridge e perito em grandes edifícios de madeira internacionalmente reconhecido, é a pessoa indicada para falar. Ele insiste que é a hora certa para projetos como o Palito, que ele projetou junto com engenheiros da PLP Arquitetura, de Londres. Ao passo que os últimos arranha-céus de aço e concreto podem parecer elegantes e ter tecnologia de ponta, a maioria vem com contas de energia do velho mundo, argumenta Ramage. “A madeira tem um lugar muito importante construção de edifícios de médio e grande porte do futuro”, diz Ramage, com seu suave sotaque americano (ele cresceu no Estado de Nova York), em uma entrevista por telefone de seu escritório na Universidade de Cambridge. “Pode ser rentável, mas rápido para construir e resultar em arranha-céus mais atraentes”.

A madeira é a nosso único material de construção renovável. Absorvendo CO2 do ar, as florestas – de desertos para plantações de culturas – são depósitos de carbono enormes, ou “sumidouros”. Além disso, a madeira de uma árvore continua a armazenar carbono quando se torna uma viga de madeira que sustenta um teto, através de um processo conhecido como sequestro de carbono. Estima-se que cada metro cúbico de uma viga de madeira armazene perto de uma tonelada de CO2. Compare isso ao aço, ao concreto ou ao plástico: além de seu processo de fabricação exigir grandes quantidades de energia elétrica e água, em vez de armazenar carbono, o aço e o concreto o liberam. Para cada metro cúbico de viga, o concreto libera duas toneladas de emissões industriais (o aço libera ainda mais). Quando se termina a construção de um arranha-céus de concreto, ele já produziu dezenas de milhares de toneladas de CO2; estima-se que como um todo a indústria de concreto emite 5 vezes mais carbono do que a indústria aeronáutica do mundo.

Aqui está a parte assustadora: mais de 70 por cento das emissões de dióxido de carbono relacionadas com a energia, diz a Scientific American, vêm das novas megacidades do planeta. Estima-se que a China produziu mais concreto nos últimos seis anos do que os EUA em toda a sua história.

Treet building
O edifício Treet de 14 andares em Bergen, Noruega, atualmente o mais alto edifício de madeira do mundo.

É verdade que nos últimos anos os edifícios de concreto e aço tornaram-se muito eficientes em termos de energia, graças a um melhor isolamento térmico, painéis solares, telhados com vegetação, reciclagem de águas residuais e iluminação de baixo consumo, mas na batalha pela supremacia verde, nada chega perto da madeira. Massas de edifícios de grande porte provenientes de plantações de madeira proveriam um sumidouro de carbono para qualquer cidade desenvolvida.

Atualmente, o agro florestamento pode não ter uma parte importante na política internacional de mudança climática, mas isso provavelmente vai mudar por volta da próxima década, diz o arquiteto Michael Green, de Vancouver, um perito em grandes construções de madeira internacionalmente reconhecido. Ao passo que as plantações de madeira não são nenhum substituto para o desmatamento contínuo – florestas tropicais virgens têm valor ecológico insubstituível – elas são uma forma de reduzir gases de efeito estufa produzidos pelo homem.

Treet Building
Vista interior de um apartamento no Treet com proeminentes vigas de madeira.

“Plantações europeias de madeira estão se expandindo, enquanto o uso de madeira está diminuindo porque estamos usando menos papel”, explica Michael Ramage. “Na verdade, estamos cortando muito menos do que cultivando, numa época em que a madeira como material estrutural está alcançando um valor superior. As plantações de madeira também dariam aos agricultores que estão em dificuldades em países industrializados uma nova fonte de renda”.

Um uso ampliado de madeira na construção – junto com mais árvores, parques, telhados verdes e jardins verticais – também vai reduzir o efeito de ilha de calor urbano: o fenômeno de temperaturas mais altas sentido nas cidades por causa do concreto e do alcatrão absorvendo energia térmica e irradiando-a de volta na atmosfera.

Mais construções de madeira e grandes árvores sombreiras significariam temperaturas mais baixas – e ar mais puro nas cidades (uma árvore adulta remove de 60 a 70 vezes mais poluição que uma pequena). Um relatório da Organização para a Alimentação e Agricultura emitido em julho pediu mais madeira e materiais à base de madeira para serem usados na construção, em vez de materiais não renováveis como concreto, tijolos e aço.

Construções de madeira, obviamente, não são nada novo. O templo budista Horyuji de cinco andares em Nara, no Japão, construído há mais de 1.400 anos, sobreviveu a terremotos, a incêndios e a inundações. Mas na maioria dos países, a madeira perde seu encanto – especialmente para a construção de edifícios monumentais – uma vez que a arte da cantaria e, mais tarde, alvenaria pegaram. Mesmo hoje há uma resistência à construção de larga escala em madeira por três três velhas razões de senso comum. Madeira apodrece. Tem risco de incêndio. Não é rígida ou pesada o suficiente para a construção de arranha-céus. Os desafios são reais, mas os que estão na vanguarda da construção com madeira modificada insistem que a maioria dos desafios têm sido rapidamente superados – se já não foram.

Foto: CF Arquitetos Moller
Proposta de uma torre de 34 andares, em Estocolmo.

Foto: Cortesia da CF Arquitetos Moller

Muitos estão apostando suas carreiras e dinheiro em um grande futuro para arranha-céus de madeira. E a boa notícia é que algumas das pessoas na vanguarda desta nova onda estão na Austrália.

Em uma manhã quente e ensolarada no final de julho, enquanto uma multidão de trabalhadores atravessam apressadamente a nova City Walk Bridge de Sydney para seus escritórios na torre de vidro gigantesca do outro lado, o Barangaroo, o arquiteto Jonathan Evans agarra meu braço e me faz parar. Estávamos a apenas 50 metros do local do mais recente projeto de Evans, a International House de Sydney, um edifício de escritórios feito em madeira, de sete andares, agora em construção na entrada do Barangaroo. Evans está ansioso que eu tenha um primeiro vislumbre – a partir deste ponto elevado – de um floreio em sua fachada.

Hyperion de Bordeaux, a ser concluída em 2019.
Hyperion de Bordeaux, a ser concluída em 2019.

Trata-se de uma colunata de madeira da altura de dois andares, deslumbrantemente elegante, que se estende pela inteira fachada do prédio; será a primeira coisa que os pedestres verão ao cruzarem da cidade para o Barangaroo. “A colunata liga o Barangaroo de uma extremidade à outra”, diz Evans, que é alto e de fala suave, enquanto olha para a obra que ele projetou com o arquiteto sênior Alec Tzannes. “Se você tem uma porta da frente, você deseja que ela seja convidativa e atraente, não é?”

O que primeiro me chama a atenção à medida que entramos na obra da International House, vestidos de acordo com o regulamento com jaquetas de alta visibilidade, capacetes e botas com bicos de aço, é o fraco cheiro amadeirado dos três andares já concluídos. O teto e paredes de CLT expostos, feitos de pinho e espruce, não apenas são acolhedores e convidativos, mas exalam um cheiro resinoso (que diferença do cheiro acre de concreto recém-derramado). Mas é quando você vê o núcleo da construção – o poço do elevador de madeira e as paredes estruturais – que você percebe que este é um edifício (exceto por suas fundações em concreto) construído inteiramente de CLT (pisos, tetos e paredes), e de madeira laminada colada (para as vigas e postes).

Eu sou o primeiro jornalista a visitar a obra, e notei algo mais além da ausência do cheiro de concreto: nenhum barulho ensurdecedor. Visto que os painéis de madeira maciça, prefabricados na Áustria, são içados, encaixados e parafusados no local, praticamente sem desperdício, há muito menos barulho de construção e, como me disseram, muito menos movimento de caminhões de cimento e outros veículos pesados, diminuindo o congestionamento nas vias locais e o barulho.

As estruturas de CLT e de madeira laminada colada dessas dimensões tipicamente requerem apenas uns poucos instaladores e são finalizadas num prazo menor. A International House de Sydney será concluída em maio do próximo ano, três meses menos do que uma construção similar feita em concreto. Além do mais, a International House terá propriedades térmicas e acústicas superiores, em comparação com a maioria de seus vizinhos.

Evans faz parte de um pequeno clube de arquitetos na Austrália que adoram projetos com madeira, em especial projetos de grande porte. Ele simplesmente adora sua aparência e ambiente. Em seu escritório na cidade interiorana de Chippendale, algumas semanas, antes ele pendurou uma peça de CLT do tamanho de pelo menos duas caixas de pão (c. de 40 l de volume). “A gente que é arquiteto gosta de tocar e sentir os materiais”, ele explicou. “A madeira tem uma qualidade tátil como nenhuma outra coisa”. Nem toda a nova geração de arranha-céus de madeira se vestem de veios de madeira. O exterior do Forté de Melbourne, por exemplo, é revestido de outros materiais; a International House, no entanto, celebra sua estrutura de madeira da colunata ao telhado.

Acontece que os edifícios de madeira não são apenas mais saudáveis para o meio ambiente, mas também para os humanos que vivem neles, produzindo benefícios semelhantes ao de se estar na natureza: pressão arterial e ritmo cardíaco mais baixos. Um estudo feito em 2009 pelo Instituto de Pesquisa da Áustria mostrou que crianças ensinadas em edifícios de madeira sofrem menos estresse e se concentram melhor; vilas de aposentados construídas em madeira promovem a tranquilidade, segundo estudos feitos no Reino Unido e na Finlândia; e no Japão, aspectos positivos foram observados em clínicas de neurologia construídas em madeira.

As pessoas são “inerentemente atraídas pela madeira, que lhes traz sentimentos calorosos, de conforto e relaxamento…” concluiu um estudo feito pelo Planeta Arca, publicado no ano passado.

Jonathan Evans diz que há agora um movimento no Reino e na Alemanha para que lares de idosos sejam construídos em madeira. “Há uma crença forte de que prédios de madeira produzem um ambiente mais sereno; os idosos se sentem mais humanos”, ele diz.

Mas não seria um risco arranha-céus de madeira se transformarem numa torre infernal em caso de incêndio? Com a tecnologia da madeira maciça isso não acontece, de acordo com José Torero Cullen, um professor de engenharia de segurança contra incêndios da Universidade de Queensland. Ele tem feito testes de resistência contra incêndios em prédios de madeira, incluindo um protótipo de um pequeno apartamento no qual a mobília é consumida pelas chamas, mas as paredes e o teto não. “Se o fogo começa nas camadas exteriores do CLT, os painéis irão apenas carbonizar, protegendo a parte central”, diz ele. Isso significa que se um arranha-céus de madeira incendiar, a integridade estrutural do edifício deveria ser mantida (até mesmo o aço torce sob temperaturas extremas, amolecendo por volta dos 260ºc),

Um desafio na construção de qualquer arranha-céus, mas particularmente menor nos de madeira, é a oscilação. O vento sopra contra as estruturas e acelera para cima no que é conhecido como efeito chaminé. Uma solução para reduzir a oscilação é adicionar elementos de concreto aos andares do meio e ao teto.

“Um arranha-céus de 25 andares é gerenciável e viável”, diz Andrew Nieland, um arquiteto da Lend Lease, a companhia por trás do Forté de Melbourne e da International House de Sydney. “Além disso, você precisa de um edifício híbrido, com inclusão de concreto ou aço. Mesmo assim, você ainda pode evitar uma enorme quantidade de emissões de carbono se a maior parte do edifício for de madeira”.

A beleza da madeira é que ela pode funcionar em múltiplas linguagens de design, acrescenta Nieland. Pode-se dar curvas a uma estrutura, cantos arredondados e virtualmente qualquer forma de embelezamento. “A madeira é um material de construção tradicional que pode ser usado do jeito do século 21”, ele diz.

A própria leveza da madeira pode ser uma vantagem em áreas de atividade sísmica se os edifícios são bem construídos (no Haiti, no Nepal e no Japão, muitos edifícios de madeira permaneceram incólumes no meio de um mar de entulho cinza na esteira de grandes terremotos). Arranha-céus de madeira podem ter um papel importante em áreas de solos moles (Xangai, por exemplo, afundou 40 centímetros nos últimos 50 anos, um legado de seus solos moles e do aquecimento global, possivelmente piorado pelo peso da vasta número de arranha-céus).

“Edifícios de madeira têm a resiliência das árvores; eles podem ranger e se ceder. Edifícios de concreto têm um ponto de ruptura; uma vez que comecem a desmoronar, eles têm de ser reconstruídos”, observa Dylan Brady, arquiteto chefe na Decibel Arquitetura, em Victoria. Brady projetou um edifício em CLT de oito andares, em Punt Road, Melbourne, que ele descreve como “condomínio nas alturas”.

A outra vantagem de arranha-céus de madeira, acrescenta Brady, é que seus materiais podem ser reciclados ao final de sua vida útil (estimada em pelo menos 150 anos). Edifícios de madeira e edifícios híbridos de madeira estão na vanguarda, mas deve-se evitar o fanatismo”, ele adverte. “Eles são perfeitos para um crescente número de situações, mas não para todas”.

Michael Ramage, de Cambridge, acredita que o mais provável obstáculo que as torres de madeira têm pela frente não é a engenharia, mas a atitude da pessoas. Ele admite que é preciso algum tempo para se acostumar com a ideia de morar em um arranha-céus de madeira. “É difícil mudar a mentalidade das pessoas de que o aço ou o concreto são intrinsecamente mais seguros”, ele diz. “Mas não é excelente que o material de construção que se mostra mais promissor no mundo de hoje é um com que os humanos têm tido afinidade desde que começaram a procurar abrigo fora das cavernas?” 

Traduzido de The Sydney Morning Herald.

Tradução: Wisley Vilela | Traduz.trd.br

Source: Sydney Morning Herald.

Crédito pelas fotos: conforme indicado ou do Sydney Morning Herald.

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2 comments on “Arranha-céus de madeira vão mudar nosso horizonte

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